Sem o camisa 10 que encantou o mundo, a Seleção viveu uma fase de transição, enfrentou a revolução da Holanda, a polêmica Copa da Argentina e iniciou o caminho que levaria ao inesquecível time de 1982
O tricampeonato conquistado no México, em 1970, parecia marcar o início de uma nova era de domínio brasileiro no futebol mundial. Mas o ciclo vencedor da Seleção começaria a mudar rapidamente.
Um ano após levantar a Taça Jules Rimet pela terceira vez, Pelé anunciou sua despedida da Seleção Brasileira. Aos 30 anos, o maior jogador da história decidiu encerrar seu ciclo vestindo a camisa amarela ainda no auge da carreira.
O último gol aconteceu em julho de 1971, no Morumbi, diante da Áustria. Uma semana depois, no Maracanã lotado com quase 140 mil pessoas, Pelé fez sua despedida definitiva diante da Iugoslávia. Ao deixar o gramado, emocionado, deu uma volta olímpica enquanto a torcida gritava em coro: “Fica, Pelé!”.
Motivos da decisão de Pelé:
- Sair por cima: O Rei aplicava o conselho de seu pai, Dondinho: o atleta deve parar de jogar quando todos ainda querem que ele continue, e não quando começarem a pedir para ele sair;
- Foco no Santos: Ele planejava continuar atuando pelo Santos Futebol Clube por mais alguns anos (onde jogou até 1974) antes de encerrar sua trajetória no futebol.
A partir daquele momento, o Brasil precisava aprender a jogar sem o Rei. A Seleção Brasileira enfrentou um período de transição, envelhecimento do elenco e choque tático contra o futebol europeu nas Copas de 1974 e 1978.

1974: o choque com o futebol do futuro
A Copa do Mundo de 1974, disputada na Alemanha Ocidental, apresentou ao mundo uma revolução tática. A Holanda de Johan Cruyff e do técnico Rinus Michels encantou torcedores com o chamado "Futebol Total", sistema em que os jogadores trocavam constantemente de posição e pressionavam o adversário durante toda a partida.
Enquanto o mundo descobria a famosa "Laranja Mecânica", o Brasil vivia uma profunda transformação. Sem Pelé, Tostão e Gérson, o técnico Zagallo apostou em um time mais físico e defensivo. O futebol arte deu lugar a uma equipe pragmática, baseada na marcação forte e na disciplina tática.
O novo dono da camisa 10 era Roberto Rivellino. Coube ao craque assumir o posto deixado pelo Rei. Rivellino foi o principal jogador brasileiro no Mundial, marcou três gols e liderou uma equipe que ainda buscava sua identidade.
Após uma primeira fase difícil, com empates diante de Iugoslávia e Escócia, o Brasil avançou e melhorou de rendimento. Venceu Alemanha Oriental e Argentina, mas encontrou pela frente justamente a seleção que mudaria os rumos do futebol mundial.
Na decisiva partida da segunda fase, a Holanda dominou completamente o jogo e venceu por 2 a 0. O sonho do tetracampeonato chegava ao fim. Derrotado pela Polônia na disputa do terceiro lugar, o Brasil terminou a Copa apenas na quarta colocação.
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O interior paulista em destaque
Mesmo sem repetir o brilho de 1970, a Seleção contava com forte presença de jogadores nascidos no interior paulista. O goleiro Emerson Leão, de Ribeirão Preto, foi um dos destaques do torneio. A equipe também tinha o lateral-direito Zé Maria, de Botucatu; o zagueiro Marinho Peres, de Sorocaba; e o meia-atacante Leivinha, de Novo Horizonte.
1978: o Brasil volta a competir
Quatro anos depois, na Argentina, o cenário era diferente. A Seleção ainda buscava reencontrar o futebol brilhante de outras gerações, mas já apresentava sinais de evolução.
Sob o comando de Cláudio Coutinho, o Brasil adotou conceitos modernos inspirados no futebol europeu. Termos como "overlapping", polivalência e preparação física intensa passaram a fazer parte do vocabulário da equipe.
O resultado foi uma Seleção mais organizada e competitiva. Embora não encantasse como os times de 1958, 1962 ou 1970, o Brasil se tornou extremamente difícil de ser derrotado. E de fato não foi derrotado. A campanha terminou invicta, com quatro vitórias e três empates.
Um dos momentos mais marcantes daquela Copa aconteceu no empate sem gols entre Brasil e Argentina. Disputado no estádio Gigante de Arroyito, em Rosário, o confronto ficou conhecido como "A Batalha de Rosário".
O jogo foi marcado por entradas violentas, provocações constantes e forte pressão da torcida argentina. O jovem Zico, disputando sua primeira Copa do Mundo, foi um dos principais alvos da marcação adversária e sofreu diversas faltas duras ao longo da partida.
Pouco futebol foi visto naquele dia. O empate manteve as duas seleções vivas na disputa por uma vaga na final.
A polêmica que atravessou gerações
Na rodada decisiva, Brasil e Argentina chegaram empatados na classificação. A Seleção havia feito sua parte, mas os argentinos precisavam vencer o Peru por quatro gols de diferença para ultrapassar os brasileiros no saldo.
O resultado final foi uma surpreendente goleada por 6 a 0. A vitória garantiu a classificação da Argentina para a final e gerou suspeitas que permanecem vivas até hoje entre torcedores e historiadores do futebol.
Sem conseguir disputar o título, o Brasil terminou em terceiro lugar ao vencer a Itália por 2 a 1. O técnico Cláudio Coutinho resumiu o sentimento nacional ao definir aquela equipe como a "campeã moral" do Mundial.

O início do caminho para 1982
Apesar da frustração, a Copa de 1978 deixou um importante legado. A Seleção havia recuperado competitividade, mas ainda faltava o brilho que sempre caracterizou o futebol brasileiro.
Nos anos seguintes, a recém-criada CBF promoveu mudanças profundas. Cláudio Coutinho deu lugar a Telê Santana e uma nova geração começou a ganhar espaço.
Surgiam nomes como Sócrates, Falcão, Júnior e Leandro. Zico atingia sua maturidade técnica e o Flamengo de 1981 encantava o mundo com um futebol ofensivo e envolvente. Aquele período marcou o fim da reconstrução iniciada após a despedida de Pelé.
Em 1982, na Espanha, o Brasil voltaria a encantar o planeta com uma das seleções mais admiradas de todos os tempos. Mas essa já é a história do próximo capítulo da série Torcida Campeã Visão Notícias.

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