Quando a Seleção Brasileira desembarcou no México para disputar a Copa do Mundo de 1970, carregava muito mais do que o sonho do tricampeonato. Quatro anos antes, na Inglaterra, o Brasil havia sofrido uma eliminação precoce e traumática, com Pelé perseguido por faltas violentas e uma equipe que parecia distante do brilho das campanhas vencedoras de 1958 e 1962. Mas foi justamente das lições daquele fracasso que nasceu uma das maiores equipes da história do esporte mundial.
Série Torcida Campeã Visão Notícias
Com Pelé, Jairzinho, Tostão, Rivellino, Gérson e Carlos Alberto Torres, o Brasil conquistou o tricampeonato mundial de forma invicta, ganhou definitivamente a Taça Jules Rimet e deixou para a posteridade uma seleção que, mais de meio século depois, continua sendo apontada por muitos especialistas como a melhor de todos os tempos.
A Copa que mudou o futebol
A Copa do Mundo do México não ficou marcada apenas pelo desempenho brasileiro. O Mundial de 1970 trouxe inovações que transformaram definitivamente a competição.
Foi a primeira Copa transmitida ao vivo via satélite para diversos países e também a primeira a chegar em cores para milhões de telespectadores ao redor do planeta.
Embora a maioria dos brasileiros ainda assistisse aos jogos em televisores preto e branco, o torneio inaugurou uma nova era para a televisão esportiva.
Outra novidade importante foi a estreia oficial dos cartões amarelo e vermelho. Curiosamente, apesar da inovação, nenhum jogador foi expulso durante toda a competição.
Pela primeira vez também foram permitidas substituições durante as partidas, algo impensável nas edições anteriores. A famosa bola Telstar, da Adidas, com seus tradicionais gomos pretos e brancos, fez sua estreia justamente naquele Mundial.
A seleção dos cinco camisas 10
O técnico Mário Jorge Lobo Zagallo assumiu a Seleção poucos meses antes da Copa após a saída polêmica de João Saldanha. O novo treinador recebeu uma equipe talentosa, mas encontrou uma questão aparentemente impossível de resolver.
Como escalar juntos tantos craques acostumados a ser protagonistas? A solução entrou para a história. Zagallo conseguiu montar uma equipe que reunia jogadores que atuavam como camisas 10 em seus clubes.
Pelé, Tostão, Gérson, Rivellino e Jairzinho passaram a formar um sistema ofensivo que encantou o planeta. O futebol apresentado era ofensivo, criativo e técnico, mas sem abrir mão da organização tática. Nascia a lendária "Seleção dos Camisas 10".
Ciência da NASA no futebol
Muito antes da tecnologia dominar o esporte, a comissão técnica brasileira apostou em algo revolucionário para a época. A preparação física utilizou conceitos inspirados em estudos desenvolvidos para militares norte-americanos e astronautas da NASA. O responsável por liderar esse processo foi o então capitão do Exército Cláudio Coutinho.
Ao lado de outros especialistas, ele implantou testes físicos rigorosos, avaliações científicas e programas específicos para enfrentar um dos maiores desafios do Mundial: a altitude mexicana. As cidades-sede ficavam a mais de dois mil metros acima do nível do mar.
Enquanto diversas seleções sofriam com o desgaste físico, o Brasil parecia crescer durante as partidas. Não por acaso, dos 19 gols marcados pela equipe no torneio, 12 aconteceram no segundo tempo. O sucesso foi tão grande que ajudou a revolucionar a preparação física no futebol mundial.

O misticismo de Zagallo
Se Cláudio Coutinho representava a ciência, Zagallo carregava outra arma: a superstição. Devoto de Santo Antônio, o treinador era conhecido por sua paixão pelo número 13. Cristão devoto e profundamente supersticioso, ele transformou rituais pessoais em pilares de liderança na Copa de 1970, encontrando nas coincidências numéricas um combustível psicológico para o time. Ele passava horas encontrando coincidências e combinações envolvendo datas, nomes e resultados.
Ele passava os dias somando letras, datas e placares para encontrar o número 13 e justificar que o destino conspirava a favor do Brasil. Para Zagallo, nada era por acaso. Longe de causar estranheza, suas crenças acabaram incorporadas ao ambiente da Seleção.
A célebre frase "Brasil Campeão" possui exatamente 13 letras, algo que ele usava para motivar os atletas e a imprensa. Os jogadores compraram a ideia e viam nas manias do treinador uma fonte extra de confiança. Entre ciência e superstição, o Brasil parecia reunir todos os ingredientes para fazer história.
Centro-Oeste Paulista também estava na Seleção
A campanha do tricampeonato também teve representantes ligados ao interior paulista. Um deles era o lateral-direito Zé Maria, natural de Botucatu. Revelado pela Ferroviária de Botucatu e então jogador da Portuguesa, ele integrou o elenco campeão no México como reserva imediato de Carlos Alberto Torres.
Mesmo sem jogar, sua dedicação nos treinos intensos da NASA foi fundamental para manter o nível do elenco elevado. A recompensa de Zé Maria viria quatro anos depois, quando ele assumiu a titularidade absoluta da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1974, na Alemanha.
Zé Maria se transferiu para o Corinthians, tornando-se um dos maiores ídolos da história alvinegra, onde jogou por 13 anos (de 1970 a 1983), somando 598 partidas e marcando 17 gols.

Outro nome era Edu, nascido em Jaú. Ele foi um prodígio completo. Descoberto muito jovem, foi levado ao Santos FC por indicação direta de Pelé. Antes da Copa de 70, ele já jogava no time principal do Santos desde os 16 anos e já tinha no currículo a convocação para a Copa de 1966 na Inglaterra (ele detém até hoje o recorde de jogador mais jovem a ser convocado para uma Copa, com apenas 16 anos). Entre 1968 e 1969, ele era considerado por muitos críticos como o melhor ponta-esquerda do planeta.
Revelado pelo Santos e apontado por muitos como um dos maiores talentos de sua geração, ele era reserva de Rivellino e participou de uma partida durante o Mundial, entrando no segundo tempo da vitória sobre a Romênia, substituindo Clodoaldo para dar mais fôlego e velocidade ao ataque brasileiro no calor de Guadalajara. Ele era o reserva imediato de Rivellino, que acabou recuado para a ponta-esquerda no esquema tático místico e inovador de Zagallo.
E havia ainda o elo mais conhecido da região com aquela equipe histórica. Pelé, nascido em Três Corações (MG), mas criado em Bauru, já era um dos maiores jogadores do planeta. Foi justamente no interior paulista que começou a trajetória do garoto que se transformaria no Rei do Futebol.
Uma campanha perfeita
O Brasil estreou vencendo a Tchecoslováquia por 4 a 1. Na sequência derrotou a Inglaterra por 1 a 0 em um dos jogos mais memoráveis da história das Copas. A partida ficou marcada por uma defesa considerada por muitos a maior de todos os tempos: Gordon Banks salvou um cabeceio de Pelé que parecia impossível de ser defendido.
Contra a Romênia, nova vitória: 3 a 2. Nas quartas de final veio o Peru, derrotado por 4 a 2. Na semifinal, o Brasil enfrentou o Uruguai em uma reedição da traumática decisão de 1950. Desta vez a história foi diferente. A Seleção venceu por 3 a 1 e avançou para a final.
Os lances que não viraram gol
Curiosamente, alguns dos momentos mais famosos daquela Copa sequer terminaram em gol. Contra a Tchecoslováquia, Pelé tentou surpreender o goleiro adversário com um chute do meio de campo. A bola passou muito perto.
Contra o Uruguai, protagonizou um lance considerado genial até hoje. Sem tocar na bola, deixou o goleiro uruguaio para trás apenas com um movimento de corpo. O chute saiu raspando a trave. Mesmo sem resultar em gol, os dois lances entraram para a história das Copas.

A final perfeita
No dia 21 de junho de 1970, o Estádio Azteca recebeu a decisão entre Brasil e Itália. A partida reunia as duas seleções bicampeãs do mundo. Quem vencesse levaria definitivamente a Taça Jules Rimet.
Pelé abriu o placar. A Itália empatou. Mas no segundo tempo a Seleção mostrou toda sua força. Gérson marcou o segundo. Jairzinho fez o terceiro.

E Carlos Alberto Torres encerrou a obra-prima. Após uma troca de passes que envolveu praticamente todo o time brasileiro, o capitão acertou um chute indefensável. O gol é considerado até hoje um dos mais bonitos da história do futebol.
Vitória por 4 a 1. Tricampeonato mundial. A Taça Jules Rimet passava definitivamente para as mãos do Brasil.
Marília viveu um Carnaval fora de época
Em Marília, a Copa de 1970 foi acompanhada entre o rádio e a televisão. Ter um aparelho de TV ainda era privilégio de poucas famílias. Por isso, muitas casas abriam suas portas para vizinhos e amigos.
Em algumas ruas, os aparelhos eram colocados próximos às janelas para permitir que mais pessoas acompanhassem os jogos. As salas ficavam lotadas. Crianças sentavam no chão. Adultos permaneciam em pé.
Quem não tinha acesso à imagem recorria ao velho companheiro de todas as Copas: o rádio. No dia da final, o comércio praticamente parou. As avenidas Sampaio Vidal e Rio Branco ficaram vazias durante os 90 minutos da partida.
Mas bastou o apito final para a cidade se transformar. Milhares de pessoas tomaram as ruas. Fuscas, Kombis e Corcéis percorreram o centro em buzinaços que avançaram pela madrugada.
Bandeiras foram agitadas nas janelas. Escolas de samba e grupos improvisados levaram tambores e instrumentos para as comemorações. O tricampeonato havia transformado Marília em um enorme Carnaval verde e amarelo.
O legado da maior seleção de todos os tempos
Mais de cinco décadas depois, a Copa de 1970 continua servindo como referência quando o assunto é futebol bem jogado. Foi a consagração definitiva de Pelé. A despedida do Rei das Copas do Mundo.
A vitória da ciência aplicada ao esporte. A prova de que talento e organização podem caminhar juntos. E o momento em que o Brasil conquistou definitivamente seu lugar entre as maiores potências da história do futebol.
Para milhões de torcedores, aquela seleção não foi apenas campeã. Foi uma obra de arte vestida de amarelo.
Próximo capítulo:
Copas de 1974 e 1978: o mundo aprendeu a marcar o Brasil, mas o talento brasileiro continuou produzindo craques que ajudaram a construir o caminho para uma das seleções mais admiradas da história: a de 1982.

Envie-nos sugestões de matérias: (14) 99688-7288









