Conhecido pela venda de trufas nos semáforos de Marília, Vinícius Rodrigues sofreu ferimentos e não consegue trabalhar nas ruas. Responsável pelo sustento de oito pessoas, pede que clientes procurem os doces diretamente em sua casa
Em Marília, o homem que há anos aposta na confiança dos marilienses para vender seus doces agora vive uma situação inversa: é ele quem precisa contar com a solidariedade das pessoas.
Vinícius Rodrigues da Cruz, de 38 anos, conhecido pela venda de trufas e balas baianas nas ruas e semáforos de Marília, ficou ferido após ser atropelado por uma motocicleta enquanto trabalhava na noite de segunda-feira. Com vários ferimentos, principalmente nas pernas, ele está temporariamente impossibilitado de seguir sua rotina nas ruas.
Vinicius atendia um cliente quando foi atropelado pela moto.
O afastamento representa muito mais do que alguns dias sem trabalhar. Vinícius vive exclusivamente das vendas e, segundo ele, sua atividade ajuda atualmente no sustento de oito pessoas, entre familiares envolvidos na fabricação e comercialização dos produtos.
Sem poder carregar a cesta de aproximadamente dez quilos e percorrer as ruas, encontrou uma alternativa: está pedindo aos clientes que, durante sua recuperação, vão até sua casa comprar as trufas e balas baianas.
É um novo capítulo na trajetória de alguém que aprendeu muito cedo que vender também é uma forma de sobreviver.
Dos doces no metrô ao semáforo de Marília
Natural do Rio de Janeiro, Vinícius começou a trabalhar aos 13 anos, vendendo doces no metrô carioca para ajudar a mãe nas despesas de casa. Nunca mais deixou a profissão de vendedor ambulante.
Depois de conhecer a esposa em Balneário Camboriú, em Santa Catarina, mudou-se para Marília em 2013. Os primeiros tempos foram difíceis. Para conseguir renda, vendeu roupas e cosméticos de porta em porta no comércio.
Com o passar do tempo, percebeu uma diferença fundamental entre os produtos. Roupa não é algo que alguém compra todos os dias. Comida, sim.
Em 2017, decidiu apostar definitivamente nos doces e resgatou uma receita de chocolate que já fazia sucesso entre familiares. A lógica era simples.
“O chocolate você pode comer hoje e amanhã de novo”, costuma dizer. Nasciam ali as bases do negócio que posteriormente se tornaria conhecido por muitos marilienses.
O “Pix da Confiança”
Mas foi no semáforo que Vinícius encontrou uma maneira diferente de vender. Entre seus pontos de trabalho está o cruzamento da Avenida Sampaio Vidal com a Rua Nove de Julho. O problema é que o sinal permanece fechado por pouco tempo. Não dá para apresentar o produto, convencer o motorista, receber o dinheiro e ainda procurar troco.
Vinícius transformou o problema em estratégia. Quando o motorista quer comprar, mas não tem dinheiro disponível naquele momento, ele entrega o doce e fornece seu telefone como chave Pix. O cliente leva primeiro e paga depois. É o chamado “Pix da Confiança”.
A abordagem é acompanhada de bom humor. Vinícius chega a desafiar os clientes: se o chocolate não estiver entre os melhores que já provaram, não precisam pagar. Segundo ele, a grande maioria honra o compromisso posteriormente. A confiança virou parte do próprio negócio.
Trabalho de domingo a domingo
Por trás da abordagem descontraída existe uma rotina pesada. Pai de uma menina de três anos, Vinícius afirma trabalhar de domingo a domingo, normalmente durante pelo menos 10 horas por dia.
Enquanto ele fica na linha de frente das vendas, familiares trabalham na produção. A cunhada participa diretamente da fabricação artesanal dos produtos.
Além das trufas, outro sucesso são as chamadas balas baianas, doces com cobertura crocante de caramelo e recheio de coco. O negócio também foi formalizado como Microempreendedor Individual (MEI).
Vinícius ainda procura compartilhar aquilo que aprendeu nas ruas com outros vendedores. Recentemente, ajudou um ambulante que tentava comercializar cerca de 50 bolos de pote. Utilizando sua forma de abordagem, conseguiu vender toda a produção em poucas horas e entregou o dinheiro arrecadado ao colega.
O acidente
Após o acidente, Vinicius ficou na calçada aguardando socorro.
Foi justamente durante o trabalho que a rotina mudou. Na noite de segunda-feira, Vinícius estava no cruzamento da Avenida República com a Rua Nove de Julho atendendo um motociclista quando acabou atingido por outra motocicleta.
Segundo ele, a condutora teria feito uma ultrapassagem pela direita, nas proximidades da faixa destinada ao estacionamento, e não percebeu sua presença.
Apesar dos ferimentos, Vinícius diz não guardar ressentimento da motociclista.
“Eu a perdoei. Ela estava indo para o segundo emprego, bastante cansada e não percebeu que eu estava ali”.
O vendedor aproveita o episódio para fazer um alerta para que motoristas e motociclistas redobrem a atenção, principalmente em locais onde há trabalhadores atuando entre os veículos.
Agora, a confiança mudou de lado
Os ferimentos nas pernas impedem Vinícius de retornar imediatamente às ruas. E carregar uma cesta com aproximadamente 10 quilos de produtos está fora de cogitação neste momento.
A preocupação é financeira. Cada dia parado significa menos vendas para uma atividade da qual dependem diretamente várias pessoas.
Por isso, Vinícius recorreu às redes sociais e aos próprios clientes. A produção das trufas e balas baianas continua, mas, enquanto ele se recupera, quem quiser ajudar pode fazer o caminho inverso: em vez de encontrar Vinícius no semáforo, pode procurar os produtos em sua residência.
Ele mora na Rua Independência, 111, interfone 03, no bairro Palmital, em Marília. O contato, que também é utilizado como chave Pix, é (14) 99862-3436. Quem quiser pode ajudá-lo com contribuições espontâneas, também pelo mesmo pix.
Depois de tantos chocolates entregues antes mesmo do pagamento, o vendedor que transformou a confiança em ferramenta de trabalho espera agora que essa relação construída nas ruas ajude a atravessar o período de recuperação.
Desta vez, o “Pix da Confiança” ganhou outro significado.
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