Em abril de 1946, o presidente Eurico Gaspar Dutra assinou o decreto que proibiu a exploração de jogos de azar em todo o território nacional. Oitenta anos depois, o Brasil vive uma realidade completamente diferente: 185 plataformas de cassino online operam com licença federal, e o governo projeta arrecadar R$ 22,45 bilhões com o setor em 2026.
A virada aconteceu rápido. Entre a proibição e a regulamentação, o que mudou na prática pra quem joga e pra quem opera? E o que ainda está por vir com o debate sobre cassinos físicos? A gente te explica tudo aqui.
Como os jogos de azar foram proibidos (e como voltaram)
A proibição dos jogos de azar no Brasil durou quase oito décadas. O Decreto-Lei nº 3.688/41, que trata das contravenções penais, criminalizava a prática, e o decreto de 1946 fechou cassinos, bingos e casas de jogo em todo o país. A única exceção eram as loterias federais, operadas pelo governo.
O primeiro sinal de mudança veio em 2018, com a Lei nº 13.756, que legalizou as apostas esportivas de quota fixa. Na prática, isso abriu uma brecha: plataformas estrangeiras de apostas online passaram a aceitar jogadores brasileiros sem que houvesse uma legislação clara sobre cassinos digitais. O mercado operou nessa zona cinzenta até dezembro de 2023, quando o presidente Lula sancionou a Lei nº 14.790/2023.
Essa lei, conhecida como "Lei das Bets", regulamentou de forma abrangente tanto as apostas esportivas quanto os jogos de cassino online, incluindo slots, roletas e mesas ao vivo. A partir de 1º de janeiro de 2025, apenas operadores licenciados pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), vinculada ao Ministério da Fazenda, podem atuar legalmente no país.
O que a Lei 14.790 exige dos operadores
As regras são detalhadas e cobrem desde a estrutura financeira das empresas até a proteção dos jogadores. Entre as principais exigências:
- Licença federal emitida pela SPA, com prazo de solicitação que se encerrou em outubro de 2024 para o primeiro ciclo;
- Sede ou representação legal no Brasil;
- Armazenamento de dados dos usuários em servidores localizados em território nacional;
- Políticas obrigatórias de jogo responsável, com ferramentas de autoexclusão e limites de depósito;
- Proibição de publicidade que sugira que apostas podem funcionar como investimento ou fonte de renda.
O modelo tributário também ficou definido. Operadores pagam 12% sobre o faturamento bruto. Apostadores que obtêm lucro acima de R$ 2.259,20 pagam 15% de imposto de renda sobre os ganhos.
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Aspecto |
Antes da regulamentação |
Depois da Lei 14.790/2023 |
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Operação de cassinos online |
Zona cinzenta, sem fiscalização |
Licenciamento obrigatório pela SPA |
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Tributação sobre operadores |
Nenhuma |
12% sobre faturamento bruto |
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Imposto sobre apostas para jogadores |
Inexistente |
15% sobre lucros acima de R$ 2.259,20 |
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Proteção ao consumidor |
Sem regras específicas |
Jogo responsável obrigatório, autoexclusão, limites de depósito |
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Sites ilegais bloqueados (2024-2025) |
— |
Mais de 23.000 URLs derrubadas |
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Plataformas licenciadas (início de 2026) |
0 |
185 |
O mercado depois da regulamentação: números de 2025
O primeiro ano completo de operação regulamentada trouxe dados que confirmam o tamanho do mercado brasileiro. Segundo dados compilados pela SPA, o setor gerou cerca de R$ 37 bilhões em receita bruta de jogos (GGR) em 2025, somando apostas esportivas e jogos de cassino online.
Em agosto de 2025, as plataformas com domínio .bet.br registraram mais de 2,21 bilhões de acessos mensais, um recorde. Nos três primeiros meses do ano, o Banco Central estimou que apostadores brasileiros movimentaram R$ 90 bilhões.
Pra quem busca alternativas dentro desse mercado regulamentado, plataformas como o cassino crypto da BetFury oferecem uma experiência que combina jogos de cassino com a praticidade de transações em criptomoedas, operando dentro dos padrões permitidos pela legislação atual.
O combate ao mercado ilegal também avançou. Ações coordenadas entre a SPA e a Anatel resultaram no bloqueio de mais de 15 mil sites não licenciados ao longo de 2025, além dos 23 mil URLs já derrubados no ano anterior.
Cassinos físicos: onde está o PL 2.234?
Se o cassino online já é realidade regulamentada, o debate sobre cassinos físicos continua travado no Congresso. O Projeto de Lei 2.234/2022, que autoriza o funcionamento de cassinos em resorts, bingos e até o jogo do bicho, teve uma trajetória turbulenta em 2025.
O texto foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado em junho de 2024 e chegou ao Plenário em julho de 2025. Mas foi retirado de pauta pelo presidente Davi Alcolumbre por falta de quórum e divisão entre os senadores. Em dezembro de 2025, o requerimento de urgência para votação foi rejeitado por 36 votos a 28.
A resistência vem principalmente da bancada evangélica, que argumenta que a liberação pode agravar problemas como ludopatia e facilitar atividades ilícitas. Defensores do projeto, como o senador Irajá (PSD-TO), relator da proposta, apontam que o setor pode gerar R$ 100 bilhões em investimentos, 1,5 milhão de empregos e R$ 20 bilhões anuais em impostos.
O projeto, se aprovado, permitiria até 34 cassinos físicos no país: um por estado, com exceções para São Paulo (até três) e Minas Gerais, Rio de Janeiro, Amazonas e Pará (até dois cada).
O que esperar em 2026
Três frentes merecem atenção este ano:
1- A votação do PL 2.234 no Senado. O projeto segue em tramitação ordinária e depende de articulação política para chegar ao Plenário com votos suficientes. O segundo semestre de 2026, com a proximidade das eleições, pode criar pressão tanto a favor quanto contra.
2- Restrições à publicidade das bets. Em maio de 2025, a Comissão de Esporte do Senado aprovou um projeto que limita propagandas de casas de apostas em estádios e proíbe o uso de imagens de atletas e influenciadores. Representantes do setor pediram ao presidente da Câmara que desacelere a tramitação. O desfecho deve acontecer ao longo de 2026.
3- Adaptação tecnológica da regulamentação. Discussões sobre metaverso, experiências imersivas e novos métodos de pagamento já estão na mesa da SPA. A regulamentação precisa acompanhar a velocidade com que o setor evolui, e 2026 será um ano de testes pra esse modelo.
Legalização dos jogos de azar: o que isso muda pra você
Se você joga ou pretende jogar, a legalização dos jogos de azar no Brasil traz uma mudança concreta: segurança. Plataformas licenciadas precisam seguir regras de proteção ao consumidor, oferecer ferramentas de controle e operar com transparência.
O imposto sobre apostas online, de 15% sobre lucros, é novo e exige atenção na hora de declarar o imposto de renda. Ganhos acima de R$ 2.259,20 em um mês precisam ser informados à Receita Federal.
A realidade é que o Brasil saiu de 80 anos de proibição para se tornar um dos mercados de jogos online mais movimentados da América Latina em menos de dois anos. A estrutura regulatória existe. O mercado está aquecido. A questão agora é se o país vai conseguir equilibrar o crescimento do setor com proteção efetiva aos jogadores e combate às operações ilegais que ainda resistem.
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