Giovanna dos Reis Costa, tinha nove anos quando foi encontrada morta em um matagal, dentro de um saco de lixo, com as mãos amarradas e sinais de violência sexual, no dia 12 de abril de 2006, em Quatro Barras, na Região Metropolitana de Curitiba. Ela havia saído para vender rifas da escola e desapareceu.
Quase 20 anos antes da prisão de Martônio Alves Batista, três pessoas foram consideradas suspeitas pela morte de Giovanna. À época, a polícia elaborou uma lista com alguns nomes de suspeitos, como o de Martônio – atualmente apontado como o autor do crime, segundo a Polícia Civil, após a reabertura da investigação.
Porém, a investigação seguiu com a teoria de que a criança havia sido morta em um ritual. Isso aconteceu porque as roupas da criança foram encontradas em frente à casa de Martônio, mas que também era vizinha à residência de uma casa de tarô, habitada pelas três pessoas ciganas.
Ritual satânico
Em um dos documentos do inquérito feito após a reabertura do caso, neste ano, uma testemunha afirmou que, ao encontrar na casa objetos ligados à leitura de cartas, criou-se a narrativa de que o crime pudesse ter sido cometido em um "ritual satânico".
Uma mulher e dois homens foram presos acusados do crime (ficaram presos de 2007 até 2012), quando houve o julgamento. Os três adultos foram julgados juntos e absolvidos a pedido do Ministério Público do Paraná e da defesa, por não existirem elementos que os ligassem ao homicídio.
A prisão de Martônio, na quinta-feira (dia 19), aconteceu após quase 20 anos desde o crime. Ele voltou a ser investigado depois que uma ex-enteada denunciou que o homem cometia abusos sexuais contra ela e a ameaçava, dizendo que a jovem seria a "próxima Giovanna".
Martônio foi encontrado em Londrina e está em prisão preventiva, suspeito de homicídio qualificado, ocultação de cadáver e estupro de vulnerável. Ele também é investigado por crimes sexuais contra outras pessoas.
Relembre o caso
Giovanna desapareceu no dia 10 de abril de 2006, enquanto vendia rifas escolares perto de casa, em Quatro Barras, na região Metropolitana de Curitiba. Vizinhos se uniram à família para tentar encontrar a menina.
Dois dias depois, o corpo dela foi encontrado em um terreno baldio, envolto em sacos plásticos e amarrado com fios elétricos. A vítima também tinha "sinais extremos de violência sexual", segundo a polícia.
As roupas de Giovanna foram localizadas em outro terreno desocupado, a cerca de 50 metros de distância da casa onde morava a família da menina.
A perícia constatou que a morte se deu por asfixia mecânica, como esganadura ou sufocamento. Martônio, que era vizinho da vítima, chegou a ser considerado suspeito durante as investigações.
A mulher que na época estava casada com Martônio disse aos policiais que ele estava sozinho em casa quando a criança sumiu. Os policiais encontraram um colchão com mancha de urina no imóvel e solicitaram que a mulher aguardasse a chegada da perícia. Entretanto, quando os policiais voltaram, o colchão não foi mais encontrado e a casa havia sido lavada com água sanitária.
Na época, a perícia detectou que a calcinha de Giovanna também estava impregnada de urina. No quintal da casa do suspeito, os policiais encontraram um fio de energia que era semelhante ao fio que estava amarrado ao corpo da criança.
Apesar desses fatos, Martônio prestou depoimento e foi liberado. Os outros suspeitos foram presos e, anos depois, inocentados pelo crime.
Caso é reaberto após denúncia
Em 2019, uma ex-enteada de Martônio procurou a delegacia e relatou que ele cometeu abusos sexuais contra ela. A jovem contou que foi vítima dele dos 11 aos 14 anos. Mas, afirmou que não contou a ninguém porque ele a ameaçava. A denúncia foi feita depois que o homem foi preso brevemente por ter instalado câmeras no banheiro feminino de uma pastelaria da qual era dono.
Ao reconhecer Martônio em reportagens da época, a ex-enteada contou à mãe sobre os abusos sofridos na infância e também procurou um advogado. Em 2025, já com a investigação de abuso sexual sendo feita, ela contou que Martônio a ameaçava dizendo que ela seria "a próxima Giovanna".
"Nas ameaças, ele sempre cita que já havia feito muito mal para uma menina. Se ela contasse o que vinha acontecendo para alguém, ela também seria uma vítima", explicou a delegada.
Ainda em 2025, a polícia realizou diligências sobre a morte de Giovanna, mesmo com o processo arquivado. A Justiça aceitou reabrir o caso em 2026, após a apresentação das evidências que ligam o homem ao crime. Na reabertura do caso, uma testemunha ouvida pela polícia informou que, anos depois da morte de Giovanna, o homem "debochava" do caso e utilizava o fato para aterrorizá-la
"Referiu-se aos policiais como 'idiotas e tapados', afirmando que 'estava tudo na frente deles'. Disse que o pedaço de fio utilizado para amarrar o corpo da vítima foi cortado de um rolo que ele possuía em casa; durante a diligência policial, ele segurou o rolo de fio (cuja extremidade/numeração se encaixava perfeitamente no pedaço usado no crime) enquanto o policial o examinava, sem nada perceber", afirma um dos documentos que compõe o inquérito policial.
Segundo o relato da testemunha para a polícia, o homem afirmava que "ninguém o pegou naquela época e ninguém nunca iria pegar" e a ameaçava: "eu posso sumir com todos vocês e ninguém nunca vai achar vocês, eu nunca vou ser preso".
As novas provas
Com a reabertura do caso, a polícia ouviu ex-companheiras de Martônio. Algumas contaram que a mulher que era casada com ele em 2006 (ano da morte de Giovanna), procurou algumas delas para fazer um alerta. Nessas conversas, ela disse que foi obrigada a limpar a casa para eliminar possíveis provas do crime.
Uma das mulheres revelou à delegada que Martônio confessou como teria agido no assassinato de Giovanna, o que condiz com as provas apuradas pela perícia.
"Ele relata [à ex-companheira] que, na data dos fatos, a Giovanna estava vendendo rifas, e ele falou para ela que não tinha dinheiro ali fora, só tinha dentro de casa. E falou para ela entrar na casa dele, que iria pegar o dinheiro. Ele relata para essa ex-companheira que, assim que ela [Giovanna] entrou, ele passou a sufocar e desmaiar ela e aí cometeu a violência sexual. Ele diz também que, após esse fato, ele percebeu o que tinha feito, que a menina iria reconhecê-lo. Então ele deu um jeito de ocultar o corpo, jogando o corpo numa outra área, e colocando as roupas dela em outra região para incriminar terceiros", detalha a delegada que acompanha o caso.
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