ENTENDA: Por que clubes, incluindo o MAC, reagiram contra restrições às BETS

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Marília aderiu a manifesto da FPF que alerta para impacto financeiro no futebol; propostas em discussão ampliam restrições à publicidade e aos patrocínios das casas de apostas

O futebol brasileiro abriu uma nova frente de discussão sobre as bets. Clubes e federações divulgaram um manifesto conjunto contra a possibilidade de restrições mais severas à publicidade e aos patrocínios das empresas de apostas, hoje uma importante fonte de receita do esporte. O Marília Atlético Clube (MAC) está entre os clubes que aderiram ao movimento, iniciado em São Paulo pela Federação Paulista de Futebol (FPF), intitulado "o fim do futebol brasileiro".

A mobilização ganhou força nesta semana diante de propostas em discussão no Congresso, no governo federal e também no município de São Paulo. No Senado, por exemplo, o PL 2.470/2026 prevê medidas de proteção à saúde mental, ao consumidor e à economia familiar e inclui restrições à publicidade e aos patrocínios de apostas. O projeto foi aprovado pela Comissão de Ciência e Tecnologia no início de setembro e segue em tramitação.

Os clubes reconhecem no próprio manifesto os impactos sociais provocados pela expansão das apostas, especialmente sobre pessoas vulneráveis, mas defendem que a resposta seja baseada em fiscalização, prevenção, educação e combate às plataformas ilegais, e não no desmonte do mercado regulamentado.

Por que os clubes estão preocupados?

O motivo é principalmente financeiro. As casas de apostas passaram a ocupar espaço importante nos uniformes, placas, transmissões e contratos comerciais do futebol brasileiro. Na Série A, 13 dos 20 clubes têm bets como patrocinadoras principais em 2026, embora esse número já tenha caído em relação aos 18 do ano anterior (2025).

No manifesto, as entidades usam um tom forte e afirmam que mudanças abruptas poderiam representar o “fim do futebol brasileiro”, especialmente pelo efeito sobre clubes menores, categorias de base e projetos sustentados pelas receitas comerciais.

Trata-se da avaliação dos próprios clubes; defensores das restrições argumentam, por outro lado, que é necessário reduzir os danos sociais associados às apostas.

E onde entra o MAC?

Para o Marília Atlético Clube, a discussão chega diretamente ao caixa. O clube disputa competições organizadas pela Federação Paulista de Futebol em um modelo no qual contratos comerciais coletivos incluem a exposição de marcas de apostas. Na Série A3 deste ano, por exemplo, o MAC estampou em seu uniforme uma bet dentro de acordo firmado pela FPF.

Por isso, o clube aderiu ao movimento. Para equipes do interior, com receitas comerciais menores que as dos grandes clubes, eventuais mudanças nesses contratos podem atingir recursos destinados tanto ao futebol profissional quanto à manutenção da estrutura e das categorias de base.

Em entrevista ao Visão Notícias, o presidente do MAC, Alysson Souza e Silva (foto), enfatizou que o fim da regulamentação das BETS não vai acabar com os jogos e sim com a regularização dos jogos:

"Se você tem uma BET regulamentada, tem fiscalização, tem pagamento de impostos e consequentemente as empresas de BETs podem patrocinar os clubes e competições. O fim disso vai significar que estará indo para a marginalização e consequentemente cai a receita dos clubes, cai a arrecadação de impostos porque as BETs vão continuar clandestinas e as famílias que estão tendo essas perdas vão continuar tendo e pior: sem regulamentação. Aí vai continuar tendo o problema".

Para o Marília, o prejuízo caso essa fonte de receita seja cortada ou enfraquecida divide-se em três pontos críticos:

- Inviabilidade do orçamento para 2027: poderá haver uma demissão em massa de funcionários devido à eliminação precoce na Copa Paulista e ao cenário financeiro severo, com  as cotas de 2027 sofrerem uma redução drástica. Perder o faturamento atrelado às bets agravaria esse cenário de "caixa zerado";

- Ameaça às categorias de base: O Marília depende desse tipo de patrocínio coletivo da FPF para bancar transporte, inscrições e arbitragens dos times juvenis. O manifesto encabeçado pela FPF enfatiza justamente que os clubes menores sofreriam um "golpe fatal", pois o dinheiro das apostas ajuda a sustentar a formação de novos atletas;

- Dificuldade de recuperação judicial: O MAC obteve a aprovação para o seu pedido de recuperação judicial visando renegociar dívidas antigas e destravar premiações bloqueadas. No entanto, para cumprir os acordos judiciais com os credores nos próximos anos, o clube precisa de receitas recorrentes e previsíveis. A perda do ecossistema de patrocínio das bets criaria uma enorme insegurança jurídica para os planejamentos firmados.

O que pode mudar?

Ainda não existe uma decisão definitiva que simplesmente elimine os patrocínios das bets no futebol brasileiro. O debate ocorre em várias frentes.

No Senado, o PL 2.470/2026 segue tramitando após aprovação de um substitutivo na Comissão de Ciência e Tecnologia. Em São Paulo (capital), o PL 560/2025 pretende proibir publicidade de empresas de apostas e jogos de azar on-line em eventos esportivos realizados na capital e já recebeu parecer favorável de legalidade na Câmara Municipal.

O impasse, portanto, coloca frente a frente duas preocupações concretas: de um lado, os impactos sociais, econômicos e de saúde relacionados ao crescimento das apostas; de outro, a dependência financeira que parte do futebol desenvolveu em relação ao dinheiro dessas empresas.





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