Enquanto a Europa vivia um dos períodos mais tensos de sua história, com o avanço de regimes autoritários e sinais cada vez mais claros de um conflito mundial, uma seleção sul-americana começava a chamar a atenção do planeta.
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Em 1938, na França, o Brasil conquistou o terceiro lugar na Copa do Mundo e deu os primeiros passos rumo ao reconhecimento internacional que, décadas depois, o transformaria na maior potência do futebol mundial. Foi a primeira vez que a Seleção Brasileira encantou o mundo.
Mais do que um resultado esportivo, aquele Mundial representou o surgimento de uma identidade nacional dentro de campo. Pela primeira vez, o futebol brasileiro deixou de ser visto apenas como uma curiosidade exótica e passou a ser respeitado pelos europeus.
E, curiosamente, aquela campanha também guarda conexões com o interior paulista, incluindo Marília e a região de São José do Rio Preto.
Um mundo à beira da guerra
A terceira Copa do Mundo foi realizada na França entre os dias 4 e 19 de junho de 1938. O cenário internacional era preocupante.
Na Alemanha, Adolf Hitler consolidava seu poder. Na Itália, Benito Mussolini fortalecia o regime fascista. A Espanha vivia uma sangrenta guerra civil e diversos países europeus já se preparavam para um possível conflito em larga escala.
Poucos imaginavam que, pouco mais de um ano depois, o mundo mergulharia na Segunda Guerra Mundial. Mesmo em meio às tensões, o futebol seguia crescendo.
A Copa de 1938 reuniu 15 seleções e confirmou o sucesso do torneio criado apenas oito anos antes por Jules Rimet.

Uma seleção mais forte e organizada
Ao contrário das campanhas de 1930 e 1934, marcadas por disputas internas e dificuldades de organização, o Brasil chegou à com uma equipe mais estruturada.
A então Confederação Brasileira de Desportos (CBD), que deu lugar à atual CBF (Confederação Brasileira de Futebol) em 24 de setembro de 1979, conseguiu reunir atletas dos principais centros do país e formar um elenco competitivo.
O Estado de São Paulo voltou a ter participação importante na Seleção. Entre os convocados estavam Argemiro, Brandão, Lopes e Luisinho, jogadores que defendiam clubes paulistas e ajudaram a fortalecer o grupo brasileiro. A expectativa ainda era modesta, mas a campanha surpreenderia até os mais otimistas.
Leônidas da Silva conquista o planeta
O grande nome da Copa foi Leônidas da Silva. Conhecido como "Diamante Negro", o atacante encantou torcedores e jornalistas com sua velocidade, habilidade e criatividade.
Leônidas marcou sete gols e terminou a competição como artilheiro do Mundial. Seu desempenho ajudou a transformar a imagem do futebol brasileiro no exterior.
Pela primeira vez, jornais europeus destacavam o talento dos jogadores brasileiros. As jogadas de Leônidas impressionavam tanto que muitos cronistas o consideraram a principal estrela da competição.
Sua popularidade cresceu de forma extraordinária e ele se tornou um dos primeiros grandes ídolos nacionais do futebol.

O melhor resultado da história até então
A campanha brasileira foi histórica. Após eliminar Polônia e Tchecoslováquia, o Brasil chegou às semifinais contra a Itália. Os italianos venceram por 2 a 1 e avançaram para a decisão.

Mesmo derrotada, a Seleção mostrou um futebol ofensivo e ousado que conquistou admiradores em todo o mundo. Na disputa pelo terceiro lugar, o Brasil venceu a Suécia por 4 a 2. Era o melhor resultado brasileiro em Copas do Mundo até aquele momento.
Mais importante do que a medalha de bronze foi o reconhecimento internacional conquistado pelos jogadores. O Brasil finalmente passava a ser visto como uma potência emergente do futebol mundial.
A ligação com o interior paulista
Entre os convocados para a Copa de 1938 estava o meio-campista Argemiro. Embora tenha nascido em Ribeirão Preto, ele possui uma interessante ligação com a região noroeste do Estado.
Antes de ganhar destaque nacional atuando pela Portuguesa Santista, Argemiro iniciou sua trajetória profissional justamente no Rio Preto Esporte Clube, onde jogou entre 1931 e 1935. Décadas depois, seu nome continuaria ligado à história esportiva do interior paulista.
A presença de jogadores com passagens pela região mostra que o interior já contribuía para o crescimento do futebol brasileiro mesmo nos primeiros anos das Copas do Mundo.

Como Marília viveu a Copa de 1938?
Enquanto Leônidas brilhava nos gramados franceses, os moradores de Marília acompanhavam cada notícia através do rádio e, no dia seguinte, acompanhando as matérias do jornal Correio de Marília que funcionava desde 1928. A cidade ainda era muito jovem.
Marília havia conquistado sua emancipação política apenas nove anos antes, em 1929, e vivia um período de crescimento impulsionado pelo café e pela chegada de novos moradores.
Foi pela recém-criada Rádio Clube de Marília (PRI-2), fundada oficialmente em 22 de junho de 1936 pelos pioneiros Pedro Marinho de Mello Júnior e Gustavo Gam, que muitos marilienses acompanharam as informações sobre a campanha brasileira.
Mas, não havia a retransmissão das partidas porque, naquela época, a retransmissão de sinais de rádio não funcionava como as redes modernas de satélite ou internet de atualmente.
Para uma emissora do interior repetir o sinal de uma rádio da capital ou do Rio de Janeiro, dependia-se de linhas telefônicas físicas especiais (fios de cobre de alta qualidade fornecidos pelas companhias telefônicas da época) ou de uma captação perfeita via ondas curtas para posterior retransmissão em ondas médias.
Quem morava em Marília e tinha aparelhos de rádio muito potentes e caros conseguia sintonizar, com bastante chiado, as próprias emissoras de São Paulo (como a Rádio Cosmos ou Cruzeiro do Sul) que transmitiam em Ondas Curtas. O restante da população se concentrava na frente de estabelecimentos comerciais, praças ou na própria sede da rádio para ouvir as retransmissões dos jogos do Brasil pelas emissoras que formavam a cadeia de rádio.

Heróis nacionais!
Os jogadores eram tratados como verdadeiros heróis nacionais. Nos dias seguintes às partidas, cafés e pontos de encontro da cidade transformavam-se em locais de discussão sobre os resultados e o futuro do futebol brasileiro.
Mesmo sem o título, o terceiro lugar foi comemorado em todo o país. A imprensa da época não encarou a campanha como fracasso. Pelo contrário.
Os atletas passaram a ser chamados de "bravos legionários", símbolo da coragem e da crescente importância do Brasil no cenário esportivo internacional.

A última Copa antes do silêncio
A Copa da França terminou em junho de 1938. Pouco mais de um ano depois, em setembro de 1939, começaria a Segunda Guerra Mundial. O conflito mudaria o mundo para sempre.
Milhões de pessoas perderiam a vida e diversas competições esportivas seriam interrompidas. As Copas do Mundo previstas para 1942 e 1946 acabaram canceladas.
O torneio só voltaria a ser disputado 12 anos depois. E o destino reservava ao Brasil um papel especial nessa retomada. Em 1950, o país receberia a primeira Copa do Mundo do pós-guerra, em um evento que marcaria para sempre a história do futebol mundial.
Na próxima reportagem, tudo sobre as copas de 1950 (realizada no Brasil) e a de 1954, a Copa com a maior média de gols da história, registrando 5,38 gols por partida.

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