Muito antes das transmissões ao vivo, dos estádios modernos e das redes sociais, o futebol já despertava paixão em diferentes partes do mundo. O esporte que hoje mobiliza bilhões de torcedores atravessou séculos, conquistou continentes e transformou-se no maior espetáculo esportivo da Terra: a Copa do Mundo.
Série Especial Torcida Campeã Visão Notícias — A emoção da Copa começa aqui
Tudo começou de forma muito diferente do que conhecemos atualmente. A história do futebol é extremamente antiga. Existem registros de jogos parecidos ainda na China antiga, por volta de 2.600 a.C. Um ritual chamado “TsüTsü” utilizava uma bola feita de couro e fazia parte de celebrações militares das tribos vencedoras.
Em versões ainda mais primitivas, relatos históricos apontam que os guerreiros utilizavam até cabeças de inimigos derrotados como forma simbólica de comemoração. Com o passar dos séculos, outras civilizações também desenvolveram jogos semelhantes.
No Japão antigo havia o “Kemari”, enquanto gregos e romanos criaram práticas coletivas utilizando bolas e disputas físicas. Povos da América pré-hispânica também realizavam jogos com características próximas ao futebol moderno.
O futebol de antigamente tinha versões bem primitivas, dependendo da região.
Por muitos anos, essas atividades foram apenas formas de entretenimento, celebração ou treinamento militar. Mas foi na Inglaterra que o esporte começou a ganhar regras organizadas.
No século XIX, o futebol crescia rapidamente entre estudantes e trabalhadores ingleses. Cada escola possuía suas próprias regras e isso causava grande confusão durante as partidas. Diante da necessidade de padronização, representantes de clubes e colégios reuniram-se em Londres.

O nascimento do futebol moderno
Em 26 de outubro de 1863, representantes de clubes ingleses reuniram-se em Londres e fundaram a Football Association, entidade responsável pelas primeiras regras oficiais do futebol moderno.
A partir daquele momento, o esporte começou a se profissionalizar e rapidamente espalhou-se pela Europa e por outros continentes.

As partidas eram bastante diferentes das atuais. As bolas eram pesadas, confeccionadas em couro e recheadas com bexigas de boi. Os gramados eram irregulares e as chuteiras extremamente desconfortáveis. Mesmo assim, a paixão pelo futebol crescia rapidamente.
A paixão começava a conquistar o mundo.
No Brasil, o futebol chegou oficialmente em 1894 pelas mãos de Charles Miller (foto - quando era jogador) personagem considerado como o “pai do futebol brasileiro”. Filho de ingleses, ele retornou da Inglaterra trazendo bolas, uniformes e livros de regras. Pouco tempo depois, o esporte começava a se espalhar pelas ruas, escolas e clubes brasileiros.
Inicialmente praticado pela elite, o futebol rapidamente conquistou operários, estudantes e trabalhadores. O esporte cresceu principalmente em São Paulo e Rio de Janeiro, tornando-se uma verdadeira paixão nacional nas primeiras décadas do século XX.
Enquanto isso, na Europa e na América do Sul, seleções nacionais começavam a disputar amistosos internacionais. O futebol ganhava força e tornava-se um fenômeno mundial.
Em 1904 surgiu a Fifa (Federação Internacional de Futebol Association), criada em Paris com o objetivo de organizar o esporte internacionalmente. A entidade seria decisiva para transformar o futebol em um espetáculo global.
Nas décadas seguintes, os Jogos Olímpicos passaram a receber torneios de futebol cada vez mais populares. O Uruguai venceu as Olimpíadas de 1924 e 1928, tornando-se referência mundial da época.
Surge a copa do mundo!
O sucesso dos torneios olímpicos despertou uma ideia ousada: criar um campeonato mundial exclusivo para o futebol. O principal responsável por transformar o sonho em realidade foi o francês Jules Rimet, então presidente da Fifa. Defensor da expansão internacional do esporte, ele acreditava que o futebol poderia unir países e aproximar povos.
Partida entre Bélgica e Paraguai na primeira Copa do Mundo.
Em 1928, a Fifa confirmou oficialmente a criação da Copa do Mundo. A decisão marcou o início de uma nova era para o esporte.
O Uruguai foi escolhido como sede da primeira edição por dois motivos principais: celebrava o centenário da independência do país e possuía uma das seleções mais fortes do planeta.
A competição, porém, enfrentou dificuldades. Viajar até a América do Sul naquela época era extremamente complicado. Muitas seleções europeias desistiram da disputa devido às longas viagens de navio. No fim, apenas 13 países participaram do torneio inaugural.
Mesmo assim, a primeira Copa do Mundo finalmente aconteceria. Em 1930, o planeta assistia ao nascimento do maior evento esportivo da história.

Participaram nove seleções das Américas, quatro da Europa e duas da América do Norte. O Brasil estava entre os convidados e embarcou cheio de expectativa para disputar seu primeiro Mundial.
A Seleção Brasileira, comandada pelo técnico Píndaro de Carvalho, tinha um elenco de 23 jogadores. Apenas um deles nasceu no Estado de São Paulo: o atacante Araken Patusca, nascido em Santos.
Mas havia um sonho!
A viagem da delegação brasileira foi longa e cansativa. Os jogadores cruzaram o oceano em navios, sem o conforto das viagens atuais. Não havia concentração luxuosa, preparação física moderna ou transmissão global.
A estreia brasileira aconteceu diante da Iugoslávia e terminou com derrota por 2 a 1. O primeiro gol da história do Brasil em Copas do Mundo foi marcado por Preguinho, atacante que entraria definitivamente para os registros do futebol mundial.
Mesmo eliminada ainda na primeira fase, a Seleção Brasileira dava os primeiros passos de uma trajetória que décadas depois transformaria o país na maior potência da história das Copas.
Enquanto isso, o Uruguai empolgava sua torcida. Os estádios lotados mostravam que a Copa havia chegado para ficar. O clima era de festa e paixão nacional. O futebol já movimentava multidões muito antes da televisão existir.
Jules Rimet entrega a taça que tem o seu nome ao presidente da Associação Uruguaia de Futebol, Raúl Jude.
A grande final colocou frente a frente Uruguai e Argentina, diante de mais de 60 mil torcedores no Estádio Centenário, em Montevidéu.
Os uruguaios venceram por 4 a 2 e conquistaram o primeiro título mundial da história. A festa tomou conta das ruas do país e entrou definitivamente para os registros do esporte mundial.
1934: a Copa chega à Europa
Após o sucesso da primeira edição, a Fifa decidiu levar a Copa do Mundo para a Europa.
A Itália foi escolhida como sede da edição de 1934, em um período marcado pelo crescimento do nacionalismo europeu e pelas tensões políticas que antecederiam a Segunda Guerra Mundial.
Pela primeira vez na história, as seleções precisaram disputar eliminatórias para garantir vaga no torneio. O Brasil (foto) chegou à competição cercado de expectativas, mas acabou eliminado logo na estreia após derrota por 3 a 1 para a Espanha.
Apesar da campanha discreta, aquela Copa teve enorme importância para o futebol brasileiro.
Ao contrário do que aconteceu em 1930, quando divergências políticas entre federações provocaram um boicote dos clubes paulistas à Seleção Brasileira, a edição de 1934 contou com atletas que atuavam em São Paulo.

Entre os convocados estavam Sylvio Hoffmann, Armandinho, Luizinho e Waldemar de Brito, todos defendendo o São Paulo da Floresta, antigo nome do São Paulo Futebol Clube.
Na época, Waldemar era considerado um dos principais atacantes do futebol nacional. Mas seu legado ultrapassaria os gramados.
Uma ligação histórica com Bauru e o Rei Pelé
Anos após encerrar a carreira, Waldemar de Brito tornou-se treinador do Bauru Atlético Clube (BAC). Foi justamente em Bauru que ele descobriu um garoto chamado Edson Arantes do Nascimento.

Convencido do enorme talento do menino, Waldemar levou o jovem atleta de trem para o Santos Futebol Clube em 1956. Aquele garoto se transformaria no Rei Pelé.
Assim, mesmo de forma indireta, a Copa de 1934 possui uma ligação histórica com o interior paulista e com a cidade de Bauru, palco de um dos capítulos mais importantes da história do futebol mundial.

O início de uma paixão sem fronteiras
As Copas de 1930 e 1934 ajudaram a consolidar um torneio que ainda estava dando seus primeiros passos. O Brasil ainda buscava espaço entre as grandes seleções, mas a paixão pelo futebol já crescia rapidamente.
Nas ruas, nos clubes, nos campos de várzea e nas arquibancadas, o esporte conquistava cada vez mais brasileiros. O melhor ainda estava por vir!
Na próxima reportagem, da série especial Torcida Campeã Visão Notícias, vamos relembrar a Copa do Mundo de 1938, quando o Brasil encantou o mundo pela primeira vez com o brilho de Leônidas da Silva e começou a construir sua reputação internacional no futebol.
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