A agilidade do jornalismo online.
Visão Notícias - Informações de Marília e região
Visão Notícias - Informações de Marília e região

Informações de Marília e região

- Marília/SP

Postado em 13/09/2021 às 13:50

Mariliense divulga na internet, com bom humor, trabalho que faz no cemitério

De família humilde, sonha em ter casa própria. Rotina de trabalho mostra que local nem sempre é associado à morte e tristeza.

Trabalhar como faxineira no cemitério, ou seja, na limpeza de túmulos, no primeiro momento pode parecer estranho. Mas, uma moça de 25 anos, moradora em Marília, mostra que é uma profissão como qualquer outra e é o que ajuda a sustentar a sua família.

Todo o trabalho, com bom humor, agora é divulgado nas redes sociais. Em entrevista especial ao Visão Notícias, ela afirma que tem muitos sonhos.

A jovem Jaqueline Alves Rodrigues de 25 anos, é uma moça como milhares de outras de nossa região. Mas, o diferencial é a profissão escolhida.

Ela é conhecida como “faxineira do cemitério”, já que trabalha diariamente no cemitério da Saudade, ajudando a mãe na limpeza de túmulos. Ela calcula que foram mais de 300 nessa tarefa.

“Cuidamos de todos os túmulos com amor e carinho, onde descansam os familiares mortos de nossos clientes e isso chama a atenção das pessoas”, afirmou. Toda essa atividade, apesar de difícil, é divulgada em vídeos pelas redes sociais

Rotina de trabalho

Desde muito cedo Jaqueline aprendeu com os avós e a mãe, o amor pelo trabalho. E foi na reciclagem e no cemitério que ela viveu a maior parte da sua adolescência.

Orfã de pai, que ela diz ter sido um “homem álcoolatra e espancador”, guarda uma grande admiração pelos avós (com quem foi viver desde muito pequena), quando a sua mãe teve tuberculose no pulmão e atingiu o intestino.

Tudo começou com a tarefa difícil dos avós em coletar reciclagens. 

Sua mãe passou por cirurgia, está livre da tuberculose, mas usa a bolsa de ostomia há 13 anos e está há cinco anos na fila de espera para fazer a cirurgia da reversão.

Devido a doença da minha mãe, fomos morar na casa dos meus avós e nesse tempo fui pras ruas catar reciclagem com a minha vó Tereza”, acrescentou.

Passado algum tempo trabalhei como babá e empregada doméstica, mas precisei voltar para a reciclagem e limpeza dos túmulos, para ajudar a minha que não pode pegar peso, por causa da bolsa de ostomia”, relata.

Mas, qual o seu sonho?

 

Jaqueline com a mãe, em mais um dia de trabalho.

Como citamos no começo da matéria, ter como profissão a limpeza de túmulos pode parecer estranho. Por isso, perguntamos à jovem qual o seu sonho. 

Meu sonho é continuar com as mídias digitais (atualmente com 8 mil seguidores no instagram), ter um emprego melhor, conquistar minha CNH, e a nossa casa própria”, afirmou. Ela enfatizou que “o que ganhamos é muito pouco, mas ajuda a pagar algumas despesas da casa e comprar alimentos.”

Vida dificil

Quando criança, Jaqueline sofria com uma doença conhecida como "esôfago estreito" e tinha vezes que crescia uma queloide e fechava a passagem do canal da comida e começou a fazer tratamento com endoscopia. “Não consegui engolir nem a saliva e na escola eu tinha que comer comida batida no liquidificador (minha mãe levava)”

Após sofrer bullyng, onde os colegas a chamavam de "a menina que comia lavagem de porcos", ela abandonou os estudos e disse ter vivido alí a pior fase da sua vida.

Jaqueline e a mãe vivem com a pensão que recebe pela morte do pai (meio salário), que utiliza para pagar o aluguel da casa que vivem. Do cemitério não tem mensalidade, apenas os serviços que aparecem no dia a dia, além de um cliente que paga R$ 20 por mês. Isso ajuda com algumas despesas da casa e comprar comida.

Dona Débora de Oliveira Alves, de 45 anos, é o grande incentivo e orgulho de Jaqueline: “a minha mãe, mesmo ostomisada, trabalha no cemitério todos os dias, eu apenas ajudo, pois na real o trabalho é dela.”

Confira um dos vídeos de Jaqueline:

Relatos emocionantes

Abaixo, confira alguns relatos que  a jovem Jaqueline fez ao Visão Notícias:

Sinto muito orgulho dela, mesmo vivendo tanta luta e dificuldade, nunca abre a boca pra reclamar de nada e sempre se apega em Deus”.

Gostamos de trabalhar no cemitério? Não! Mas é a forma que encontramos pra conseguir nosso sustento dentro da honestidade”.

Existem situações pelas quais a minha família passou que me ensinaram bastante coisa. Muitas delas eu não vivi, e outras eu vivi".

Uma lembrança que sempre vem na minha memória: um dia eu estava em uma esquina esperando minha avó buscar reciclagem do outro lado da rua, quando apareceu um homem com um carrão. Ele chamou e eu pensei que ele queria que eu tirasse o carrinho do caminho pra ele passar. Quase morri pra tentar tirar sozinha do lugar (riso) mas na real era pra eu ir até o carro dele. Então eu fui e ele me deu R$ 5 reais. Fiquei super feliz, me sentindo a rica.”

Deus sabe da nossa vida e do nossos corações e sabe o que realmente precisamos, e não quero tirar proveito de ninguém. Eu batalho no cemitério como forma de sobreviver, sem querer aparecer. Me orgulho de fazer parte de uma família do bem e batalhadora”.

Imagens: Marcelo Sampaio e Arquivo pessoal Jaqueline Alves

© Copyright 2017. É proibida a reprodução do conteúdo dessa página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso sem autorização escrita do visaonoticias.com
Desenvolvido por StrikeOn