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- Marília/SP

Postado em 29/03/2020 às 15:00

Feminicídio pode aumentar na pandemia, dizem especialistas

A quarentena na China para conter a disseminação do novo coronavírus completará dois meses com um efeito colateral: os casos de violência doméstica triplicaram. Se o mesmo ocorrer no Brasil — e é isso que preveem órgãos internacionais de proteção feminina, como a ONU Mulheres —, o número de casos pode ter, em alguns meses, um aumento igual ao que foi registrado em anos.

Em relação aos outros tipos de violência, há mais dois grandes perigos desse período: o aumento de casos de violência sexual, principalmente contra crianças, e as tentativas de feminicídio. Isso não significa, porém, que o isolamento social é o culpado pelo caos.

Por que a violência contra mulher aumenta durante quarentena? 

Os fatores que levam ao aumento de violência são o maior tempo de convivência e a sobrecarga de estresse em um momento de insegurança, como o que vivemos, fazendo com que a tensão se intensifique. Além disso, a rede de apoio que poderia acolher essa mulher está parada, o que faz o agressor ter certeza da impunidade.

A mulher não pode ir para a casa de alguém, da mãe, por exemplo, como costuma acontecer. Não consegue falar com uma amiga para pedir ajuda, justamente porque não está em segurança na mesma casa que o seu agressor. Ele pode ouvir e a situação ficar pior.

Os centros de acolhimento de assistência social também estão fechados, assim como o Ministério Público. Os hospitais estão à beira do caos. As delegacias trabalhando em regime de plantão. A vítima se vê encurralada.

Mulheres mais pobres estão mais vulneráveis, além disso, em comunidades mais carentes, a situação da residência, muitas vezes pequena e com um cômodo, obriga o contato constante entre as pessoas, o que certamente potencializa o risco de violência.

É essencial que, neste momento, sejam divulgadas mais informações sobre o 180, sobre a possibilidade de fazer uma denúncia pela internet e sobre acesso às autoridades para que elas possam se proteger e, principalmente, tentar enfrentar essa situação de violência dentro de sua própria residência.

A população pode achar que não pode ir à delegacia, que não terá atendimento. Na verdade, para essa modalidade de violência, as delegacias atenderão normalmente durante a pandemia.

Estupros: maioria dos casos é contra meninas e dentro de casa Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2019, uma menina de até 13 anos é estuprada a cada 15 minutos no Brasil. Os crimes referentes a essa faixa etária representam 53% de todos os estupros cometidos no país. E em 76%, o agressor é conhecido da vítima: na maioria das vezes, são pais e padrastos.

"Como as crianças estão em casa e o abusador também, o risco aumenta absurdamente. Precisamos alertar os cuidadores sobre esse risco, que fiquem mais atentos às crianças, principalmente à noite e de madrugada, pois eles têm o hábito de acessar as vítimas enquanto todos estão dormindo", alerta a médica especialista em violência sexual Mariana da Silva Ferreira, que dá cursos e palestras sobre o tema. Casos aumentarão, mas registros vão diminuir.

Mariana prevê que, com o isolamento, as denúncias formais, feitas em delegacias, de violência contra a mulher tendem a diminuir e, com isso, reduzir ainda mais os números, que já são subnotificados.

"A população pode achar que não pode ir à delegacia, que não terá atendimento. Na verdade, para essa modalidade de violência, as delegacias atenderão normalmente durante a pandemia", diz Mariana.

As delegacias estão atuando em regime de plantão e o atendimento pessoal é restrito a alguns crimes, entre eles os de violência doméstica e violência contra criança ou adolescente. Teoricamente, portanto, devem priorizar o atendimento às mulheres.

Gabriela salienta para a necessidade de prestar ajuda. "Se ouviu sua vizinha pedindo socorro, faça algo. Não conseguiu fazer nada na hora? Puxe conversa pela janela em algum momento posterior, para criar confiança. Se precisar, chame a polícia. Não podemos mais fingir que não vemos. É um problema de todos nós.".

 

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